A VISIBILIDADE E O INVISÍVEL: A LUTA DOS POVOS ORIGINÁRIOS NA DEFESA DO SEU TERRITÓRIO EM BERTIOGA

José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista

Por uma Sociologia da Resistência

Em um Brasil marcado por profundas desigualdades, a verdadeira preservação ambiental não nasce em gabinetes refrigerados, mas nas mãos calejadas daqueles que tiram seu sustento do barro e do rio. A sociologia contemporânea nos ensina que a cegueira social das elites transforma comunidades inteiras em “invisíveis”, permitindo que seus territórios sejam apropriados como áreas de lazer. É neste cenário de tensão em Bertioga que emerge uma liderança improvável, terna e firme: Mislene, a “moça caranguejeira”, cuja voz se levanta contra o apagamento sistemático de seu povo.

A Liderança que Brota do Mangue

Mislene não é apenas uma pescadora; ela é a personificação da resistência de um grupo que vive à margem da rodovia, historicamente ignorado pelos “bacanas” que transitam em seus carros blindados sem sequer decodificar a humanidade que ali reside. Como liderança que surge do “improvável”, ela representa a força moral daqueles que habitam o território não como propriedade, mas como lar. Exaltar sua figura é reconhecer que a luta pela terra é também uma luta pela dignidade. Sua batalha pode ser descrita como “feroz” porque enfrenta forças desproporcionais: o capital imobiliário e a indiferença estatal.

O Índio e o Caranguejeiro: Os Guardiões Naturais

A premissa é antiga, mas urgente: o índio é o melhor ambientalista. Quem vive da terra, sabe que destrui-la é suicídio. Eu, como presidente da Associação Água Viva, trago para este conflito local a bagagem do que estudei para compor a obra recém-lançada, “Veredas Amazônicas”. O livro, com suas mais de 900 páginas, ecoa uma verdade universal que se aplica tanto à floresta quanto ao litoral paulista: o povo originário deve ser ouvido. A voz da Amazônia é a mesma voz dos caranguejeiros de Bertioga; ambas clamam pelo direito de existir em harmonia com o meio ambiente, contra a lógica predatória da exploração.

A Elite do “Jetsky” versus O Direito à Subsistência

O conflito sociológico central reside na disputa pelo uso do espaço. De um lado, a “elite de jetsky” que enxerga o mangue e as águas como quintal recreativo; do outro, a comunidade que vê ali sua fonte de vida e ancestralidade. A invisibilidade imposta a esses trabalhadores permite que o Estado e fundações ambientais tomem decisões sem consultá-los, tratando a área como se fosse um vazio demográfico.

Impulsionado por uma transformação humanitária pessoal que me faz “enxergar a alma” por trás da paisagem, coloco a Associação Água Viva como um escudo para essa comunidade. Nossa postura é firme: os interesses recreativos e imobiliários não podem sobrepujar o direito à vida. O Estado tem a “obrigação de corrigir seus erros” e reconhecer que aquele povo não apareceu ali de repente; eles são parte intrínseca do ecossistema.

O fim da Invisibilidade

A luta liderada por Mislene e apoiada por mim não é apenas local; é um microcosmo da batalha global pela justiça climática e social. Apoiar a Associação Água Viva e a causa dos caranguejeiros é defender a tese de que a preservação ambiental é inseparável da justiça social. Enquanto a elite busca paisagens para seus jetskys, Mislene e seu povo lutam pelo direito de continuar sendo os guardiões das águas vivas. Eles não estão mais sozinhos; sua invisibilidade acaba aqui.

*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.