A realização de eventos ambientais em áreas costeiras sensíveis exige mais do que boas intenções. Exige planejamento técnico, gestão responsável do fluxo de visitantes e transparência com a população. Diante do anúncio do projeto “Verão no Clima” na Praia do Tombo, em Guarujá, a Associação Guarujá Viva – ÁGUA VIVA reitera sua cobrança por informações públicas e protocolou, nesta terça-feira, 10 de fevereiro de 2026, o pedido de informação nº 2026351870112921, com base na Lei de Acesso à Informação.
O objetivo é simples e direto: saber se existe estudo técnico atualizado que determine a capacidade de suporte da praia, isto é, o número máximo de pessoas que o local pode receber simultaneamente sem causar degradação ambiental, perda da qualidade recreativa ou comprometimento da balneabilidade. Esse parâmetro é reconhecido na literatura científica e constitui elemento essencial para qualquer política séria de sustentabilidade costeira.
Desde o início de 2025, a ÁGUA VIVA vem apresentando reiteradas solicitações de inclusão de pauta no Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (COMDEMA) para que o tema seja debatido de forma pública e técnica. A capacidade de suporte das praias, assunto fundamental para o ordenamento costeiro, a preservação ambiental e o controle dos impactos decorrentes da atividade turística, segue sem qualquer retorno, mesmo após sugestão formal de inclusão na pauta do Conselho.
Embora o “Verão no Clima” seja apresentado como iniciativa de educação ambiental, mobilização social e conscientização ecológica, permanece a pergunta central: como promover preservação sem conhecer o limite de uso do próprio ambiente? Sem esse dado, ações pontuais correm o risco de produzir efeito simbólico, mas não estrutural.
A preocupação torna-se ainda mais relevante diante dos critérios internacionalmente associados à certificação Bandeira Azul, que exigem não apenas qualidade da água e atividades educativas, mas também gestão adequada de visitantes, infraestrutura proporcional ao uso e medidas concretas para evitar superlotação. Sustentabilidade não se declara. Sustentabilidade se comprova com planejamento, monitoramento e responsabilidade pública.
O pedido protocolado pela ÁGUA VIVA solicita informações sobre:
- estudos técnicos de capacidade de suporte da Praia do Tombo;
- dimensão da área considerada e número máximo de usuários simultâneos;
- existência de plano de gestão para períodos de alta demanda ou eventos;
- relatórios ambientais, protocolos de monitoramento e infraestrutura disponível;
- órgão responsável pela fiscalização e controle do uso público da praia.
Para o presidente da Associação Guarujá Viva – ÁGUA VIVA e também conselheiro do COMDEMA, o Eng. José Manoel Ferreira Gonçalves, a ausência desse debate revela uma fragilidade estrutural na gestão ambiental do município.
“Não é possível falar em educação ambiental, sustentabilidade ou certificação internacional sem conhecer, de forma técnica, o limite de uso das nossas praias. A capacidade de suporte é um dado básico de planejamento, não um detalhe opcional.”
Segundo ele, a insistência da entidade em levar o tema ao Conselho demonstra que a sociedade civil tem cumprido seu papel, enquanto o poder público permanece em silêncio.
“Desde o início de 2025 solicitamos reiteradamente que esse assunto fosse debatido no COMDEMA. A falta de resposta não é apenas administrativa. É um sinal preocupante de ausência de prioridade na proteção do nosso litoral.”
José Manoel ressalta que o pedido de informação não busca impedir iniciativas educativas, mas garantir que qualquer ação ocorra dentro de parâmetros ambientais seguros.
“Eventos podem e devem acontecer, desde que respeitem os limites reais do território. Preservar não é discurso. Preservar é planejar, monitorar e agir com responsabilidade.”
Em cidades costeiras pressionadas pelo turismo de massa e pela urbanização acelerada, ignorar a capacidade de suporte das praias significa normalizar a degradação gradual do território. Transparência, neste contexto, não é formalidade administrativa. É condição mínima de responsabilidade ambiental.
Ao acionar novamente a Lei de Acesso à Informação, a ÁGUA VIVA reitera um princípio básico da gestão pública: não há educação ambiental verdadeira sem planejamento ambiental comprovado.
Agora, a resposta está nas mãos do poder público. A sociedade aguarda não discursos, mas dados.