Guarujá, ou o Marketing que Mata

José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista

Ficção nas Areias Paulistas

Inegavelmente, o abismo entre o marketing governamental e a realidade crua da segurança e salvamento nas praias de Guarujá atingiu um ponto de ruptura insustentável. O governo estadual e a prefeitura investem pesado em narrativa, mas esquecem o básico necessário para preservar a vida. Enquanto as peças publicitárias exibem drones e treinamentos de elite, quem frequenta a orla enfrenta o abandono sistêmico. Essa discrepância não configura apenas um erro de comunicação, mas uma negligência deliberada que transforma o lazer em tragédia anunciada.

O Perigo da Tecnologia Avançada Inovação

No último sábado, 27 de dezembro, por volta das 12h30, presenciei o colapso dessa estrutura na Praia das Astúrias. Uma forte corrente de retorno arrastou banhistas para o fundo, revelando um despreparo técnico e operacional que beira o criminoso. Em contrapartida aos números oficiais que prometem 108 profissionais para a temporada, a extensão enorme de areia contava com apenas três guarda-vidas. Essa distribuição rala impediu que os agentes percebessem o sinal de socorro prontamente, deixando as vítimas à mercê da própria sorte em um momento crítico.

Caos na Praia das Astúrias

Ademais, as falhas de equipamento e comunicação agravaram o cenário de horror. O rádio de comunicação entre o posto central e o guarda-vidas na água simplesmente falhou no momento do resgate. Não basta estampar o selo de Tecnologia Avançada Inovação em drones se o rádio do guarda-vidas não funciona. Por esse motivo, uma guarda-vidas de folga precisou correr fisicamente até outro posto para pedir reforço, um atraso inaceitável em situações onde cada segundo conta. Além disso, o agente de serviço entrou no mar sem qualquer prancha de salvamento, demonstrando uma precariedade técnica assustadora.

A Falha da Tecnologia Avançada Inovação

Surpreendentemente, o resgate só obteve sucesso devido à bravura de um banhista civil, que arriscou a própria vida para salvar os outros. O guarda-vidas presente, um funcionário temporário treinado pela PM, demonstrou total falta de preparo emocional e técnico para gerenciar a crise. Embora o curso de formação preveja 122 horas de carga horária e técnicas de ressuscitação cardiopulmonar (RCP), a prática revelou um profissional aparentemente selecionado apenas pelo vigor físico. Sem equipamentos básicos como o Desfibrilador Externo Automático (DEA) ou suporte de primeiros socorros adequado, a vida humana torna-se secundária diante da agenda fiscal do governo.

O Preço do Amadorismo Institucional

Portanto, a sociedade não pode mais aceitar que a gestão pública trate o salvamento marítimo como um palco para propaganda política. O cenário presenciado nas Astúrias exige uma denúncia formal ao Ministério Público para apurar a falta de equipamentos e o déficit de contingente. A vida das pessoas vale muito mais do que drones que servem apenas para fotografias de campanha. Consequentemente, precisamos exigir que o treinamento de 122 horas e o uso de tecnologias sejam reais, eficazes e presentes no dia a dia da orla, e não apenas peças de ficção publicitária.

*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.

Declaração de Fontes:
As informações contidas neste artigo baseiam-se no meu relato direto de incidente ocorrido na Praia das Astúrias (27/12/2025), nos dados técnicos de treinamento de Guarda-Vidas Temporários (GVT) fornecidos pelo 1º Subgrupamento de Bombeiros Marítimos (SGBMar), nos protocolos internacionais de Ressuscitação Cardiopulmonar (RCP) e no plano de contingente da Operação Verão 2026 divulgado pela Prefeitura de Guarujá e pelo Governo do Estado de São Paulo.