Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
O brilho do reconhecimento mundial
A Praia do Tombo virou vitrine do Guarujá porque, temporada após temporada, o selo Bandeira Azul exige disciplina. Além disso, a certificação da Foundation for Environmental Education (FEE) cobra critérios que vão de balneabilidade a gestão ambiental, passando por segurança, acessibilidade e educação para a sustentabilidade. Assim, quando a praia chega a 16 conquistas consecutivas na temporada 2025/2026, o feito impressiona e atrai atenção. Ao mesmo tempo, a fama das ondas fortes mantém o surfe como identidade local, enquanto os 856 metros de faixa de areia reforçam a sensação de “praia curta, porém intensa”.
Praia Tombo Bandeira Azul
A cena acima, do esgoto aparente — “a céu aberto” — cria um choque imediato com o discurso da excelência. Ainda assim, essa contradição não precisa virar guerra contra o selo; ao contrário, ela precisa virar cobrança por coerência. Portanto, quando o visitante enxerga resíduos no entorno, ele não discute apenas estética, pois ele questiona risco sanitário, impacto na fauna e a seriedade da fiscalização. Além disso, quando o cidadão nota descuido repetido, ele passa a duvidar do compromisso cotidiano, mesmo que a água apresente bons índices em monitoramentos.
O que explica a dicotomia
Em primeiro lugar, poluição visível nem sempre nasce no mesmo lugar onde aparece, porque a drenagem urbana carrega resíduos para a areia após chuvas e marés, e isso pode piorar em poucos minutos. Além disso, a praia pode cumprir metas de qualidade da água em pontos e dias de coleta, enquanto falha na limpeza e no controle de descarte irregular no “miúdo” do dia a dia. Por consequência, o selo avalia um conjunto amplo de práticas, mas a percepção pública se forma pelo que o olho encontra na chegada. Assim, quando a prefeitura não garante varrição eficiente, lixeiras suficientes, fiscalização de ambulantes e gestão de resíduos, o certificado fica com cara de fantasia, mesmo que os critérios existam.
Praia Tombo Bandeira Azul
Logo, a pergunta mais útil não é “o selo vale ou não vale”, e sim “como o selo vira rotina”. Além disso, o próprio Bandeira Azul prevê educação ambiental e gestão ativa, o que combina com iniciativas como núcleo informativo, sinalização e ações de conscientização. Portanto, se o lixo permanece, alguém falha em transformar regra em prática, seja por orçamento mal priorizado, seja por fiscalização fraca, seja por falta de transparência sobre planos e metas. Consequentemente, a população percebe, comenta, fotografa e cobra, porque ninguém “se engana” quando o problema aparece diante de todos.
Cobrança inteligente e soluções objetivas
Por tudo isso, o Guarujá precisa publicar rotas e frequência de limpeza, além de indicadores simples de desempenho por semana. Além disso, o poder público deve tratar pontos de drenagem como foco permanente, instalar barreiras de retenção de resíduos onde couber e punir descarte irregular com constância, não com operação de ocasião. Do mesmo modo, a cidade pode ampliar campanhas com escolas, quiosques e surfistas, porque cultura de cuidado nasce de repetição. Por fim, a gestão deve ouvir moradores e frequentadores em reuniões abertas, porque o povo vê, entende e ajuda quando encontra respeito.
Quando o mérito encontra a verdade
Portanto, o selo só faz sentido se caminhar junto de uma praia limpa, saudável e segura em qualquer dia, e não apenas em dias “de auditoria”. Além disso, a Praia do Tombo pode continuar referência de sustentabilidade, desde que trate o lixo como urgência pública, e não como detalhe incômodo. Assim, a cidade preserva o reconhecimento internacional e, principalmente, protege quem entra no mar confiando que a realidade combina com a promessa.
*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.
Declaração de fontes: As informações deste artigo se baseiam em materiais institucionais da Foundation for Environmental Education (FEE) e do Programa Bandeira Azul no Brasil (ABAE e Instituto Ambientes em Rede), além de referências técnicas usuais de monitoramento e gestão costeira divulgadas por órgãos ambientais como a CETESB e por comunicados públicos municipais do Guarujá. Observação: não consigo acessar a internet nesta conversa para checar documentos específicos em tempo real.