Quase um ano após o surto de virose, o que mudou no saneamento de Guarujá

Em janeiro de 2025, Guarujá viveu uma de suas maiores crises sanitárias recentes. Um surto de virose, em plena alta temporada, afastou turistas, esvaziou praias, impactou o comércio local e acendeu um alerta nacional sobre a qualidade ambiental e o saneamento básico no município.

Passados quase doze meses, a pergunta que permanece é direta e incômoda:
o que, de fato, mudou desde então?

Uma crise anunciada

O surto não surgiu do nada. Há anos, moradores, associações e órgãos ambientais alertam para falhas estruturais no sistema de esgotamento sanitário, vazamentos recorrentes, extravasamentos em estações elevatórias e lançamento de esgoto em redes de drenagem pluvial, rios, canais e áreas de manguezal.

Relatórios técnicos da própria Prefeitura, procedimentos do Ministério Público e fiscalizações ambientais anteriores ao surto já apontavam riscos à saúde pública. Ainda assim, o sistema seguiu operando no limite, sem respostas estruturais à altura da gravidade do problema.

As respostas oficiais: negativas, silêncios e empurra-empurra

Após o surto, a Associação Água Viva protocolou pedidos formais de informação junto à SABESP, à CETESB e à Prefeitura de Guarujá, questionando a possível relação entre a crise sanitária e o despejo de esgoto, especialmente em áreas sensíveis como o Rio do Peixe.

O que se obteve até agora:

  • SABESP negou falhas operacionais, afirmou não ter competência para apuração epidemiológica e declarou não ter identificado vazamentos no período;
  • CETESB respondeu dentro de suas atribuições técnicas;
  • Prefeitura de Guarujá permanece em silêncio, sem apresentar resposta formal até o momento.

Ou seja, quase um ano depois, o principal ente responsável pela saúde pública municipal não apresentou esclarecimentos à sociedade.

Ministério Público acompanha, mas soluções não chegam à população

O Ministério Público do Estado de São Paulo mantém procedimentos administrativos e ambientais em andamento, cobrando informações da concessionária e do Município. Não houve arquivamento, mas também não houve medidas concretas que resultassem em mudanças perceptíveis para a população.

O acompanhamento institucional é importante, mas insuficiente quando a realidade nas ruas continua marcada por episódios de contaminação, praias frequentemente impróprias para banho, falta de transparência sobre investimentos e obras e insegurança sanitária recorrente.

Judicialização: necessária, mas lenta

Diante da inércia administrativa, a sociedade civil recorreu ao Judiciário. A Associação Guarujá Viva ajuizou duas ações distintas contra a SABESP.

A primeira é uma Ação Civil Pública por Responsabilidade por Dano Causado ao Meio Ambiente, com pedido de liminar, voltada especificamente à poluição do Rio do Peixe e da região do Perequê, buscando a interrupção dos danos ambientais, a responsabilização dos envolvidos e a adoção de medidas estruturais de saneamento.

A segunda é uma Ação Coletiva por Responsabilidade por Dano Causado, relacionada à crise crônica de abastecimento de água que afeta diversos bairros do município.

Ambas as ações cobram providências emergenciais e definitivas, diante de problemas que afetam diretamente a saúde pública, o meio ambiente e a qualidade de vida da população de Guarujá.

É preciso ser honesto com a população:
essas ações são públicas, complexas e demoradas. Até o momento, nenhuma delas obteve tutela antecipada. Todas seguem em curso regular, aguardando instrução técnica e decisão de mérito.

Isso não significa que o problema inexista. Significa que o sistema institucional reage lentamente diante de uma crise que exige urgência.

O que mudou, afinal?

Quase um ano após o surto:

  • não há plano público detalhado de investimentos em saneamento;
  • não há cronograma transparente de obras;
  • não há esclarecimento oficial do Município sobre a crise sanitária;
  • não há garantia de que novos surtos não voltarão a ocorrer.

O que existe são respostas fragmentadas, negativas técnicas, procedimentos em andamento e uma população que segue convivendo com o risco.

Guarujá não pode normalizar o inaceitável

O surto de virose deveria ter sido um ponto de virada. Até agora, parece ter sido tratado como um episódio isolado, quando, na verdade, expôs um problema estrutural crônico.

Saneamento básico não é favor. É direito fundamental.
Silêncio institucional não é prudência. É omissão.
E negar problemas não os faz desaparecer.

A Associação Água Viva seguirá cobrando respostas, transparência, responsabilização e, sobretudo, ações concretas. Guarujá não pode esperar pelo próximo surto para voltar a discutir o óbvio: sem saneamento, não há saúde, turismo, dignidade nem futuro.