Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
O plástico que tentou segurar o mar
O governo do Paraná recebeu em março deste ano uma multa de dois milhões e quinhentos mil reais do Ibama. A infração era grave e simbólica ao mesmo tempo. Fiscais encontraram o litoral de Matinhos coberto por sacos plásticos de ráfia cheios de areia espalhados pela água e pela areia. A prefeitura havia tentado conter o avanço do mar com essa solução caseira e emergencial. O resultado foi uma praia poluída por material sintético e um servidor público multado por crime ambiental. A ironia completa reside no fato de que aquela mesma areia agora retida em sacos deveria estar livre, formando dunas naturais. Aquelas dunas foram destruídas décadas atrás para dar lugar a quiosques e hotéis que agora ameaçam cair no mar.
Destruímos as restingas para construir hotéis
A história se repete em todo o litoral brasileiro. Em Tamandaré, no litoral sul de Pernambuco, derrubaram todas as restingas para erguer um fila de prédios na Praia dos Carneiros. A supressão seguiu a lógica predatória comum: primeiro removem os ecossistemas naturais que funcionam como barreiras vivas, depois constroem em áreas vulneráveis e finalmente imploram por soluções emergenciais quando o oceano cobra seu direito de passagem. A ocupação irregular atingiu níveis escandalosos em Maracaípe, também em Pernambuco, onde um empresário construiu um muro de quinhentos metros de extensão sobre área federal para proteger seu imóvel privado. A estrutura privatizou uma praia pública e causou erosão artificial justamente onde antes existia estabilidade natural. O Tribunal de Justiça determinou a retirada da obra. O verão chegou e o muro continuou lá, firme e ilegal, enquanto o mar avança sobre outras propriedades agora desprotegidas pela barreira natural que foi eliminada.
Agora usamos sacos de areia
A engorda artificial de praias tornou-se moda entre prefeitos litorâneos. Balneário Camboriú e Piçarras, em Santa Catarina, transformaram-se em exemplos dessa engenharia paliativa. A técnica consiste em aumentar artificialmente a faixa de areia através de aporte massivo de sedimento dragado de outros locais. Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina alertam que essas obras alteram a dinâmica natural das ondas e das correntes marítimas. O resultado é um efeito dominó que intensifica a erosão em trechos vizinhos e compromete a qualidade da água. Em Matinhos, a prefeitura não dispunha nem de recursos para a engorda cara. Optou pelos sacos de plástico como contenção de emergência. Os recipientes rasgaram-se e espalharam-se pelo litoral, contaminando o ambiente que deveriam proteger. A conta chegou pelo Ibama em forma de multa milionária que o contribuinte paranaense pagará duplamente: uma vez pelos sacos que falharam, outra pela penalidade por tê-los usado.
Concreto não segura a maré
Quando os sacos falham e a areia artificial some, entram em cena os muros de contenção. Hotéis e prédios residenciais erguem estruturas de concreto para salvar suas instalações do avanço do mar. O resultado é sempre o mesmo: a perda quase total da faixa de areia durante a maré alta e a destruição do perfil natural da praia. O oceanógrafo Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da USP, explica que essas obras retêm areia de um lado mas intensificam a erosão do outro. O ciclo vicioso exige novas intervenções cada vez mais caras e agressivas. A praia vira palco de uma batalha perdida contra a natureza em que o único vencedor é o empreiteiro que vende o concreto. O mar continua subindo. O nível do oceano sobe globalmente. As dunas destruídas não crescem verticalmente para acompanhar essa elevação porque foram substituídas por decks de madeira e piscinas de borda infinita.
A natureza que não compramos
Estudo coordenado pela Fundação Grupo Boticário revelou que os recifes de coral do Nordeste brasileiro evitam até cento e sessenta bilhões de reais em danos graças à sua função de proteção costeira. Manguezais armazenam carbono e sustentam setenta por cento das espécies pesqueiras exploradas comercialmente em alguma fase do ciclo de vida. Restingas e dunas conseguem acumular sedimentos e crescer verticalmente, acompanhando naturalmente a elevação do nível do mar quando preservadas. Nenhuma engorda artificial consegue replicar esse serviço ambiental gratuito. Nenhum saco de plástico substitui a vegetação nativa que fixa a areia. A ocupação predatória destruiu o escudo natural e agora exige soluções tecnocráticas que agravam o problema original. Destruímos as restingas para construir hotéis e agora usamos sacos de areia para salvar os hotéis das restingas que destruímos. A conta não fecha nunca. E, como a rir da nossa tola insensatez, o mar vai cobrando: com juros e com rigor implacável. Fazendo as contas para o dia que vai chegar, em que tudo litoral vai virar mar, se a gente não entender e parar.
*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.
Fontes: Agência Brasil, g1, UOL, CBN Curitiba, Bem Paraná, JB Litoral.