Crise de transporte em Guarujá: Compare modelos públicos e privatizados

*Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista

Transporte público em Guarujá e Maricá: dois modelos opostos

A crise do transporte público em Guarujá ganha novos contornos quando comparada ao modelo adotado por Maricá, no Rio de Janeiro. Enquanto Guarujá opera sob um sistema privatizado, com a City Transportes como concessionária, Maricá implementou um sistema de transporte público operado diretamente pelo município, com tarifa zero para os usuários. A comparação direta entre os dois sistemas revela diferenças gritantes nos custos operacionais e na qualidade do serviço oferecido.

Guarujá: transporte privatizado e altos custos

Em Guarujá, a City Transportes apresenta uma planilha de custos que chama a atenção pela elevação dos valores. Segundo os dados fornecidos pela empresa:

  • Custo fixo mensal por veículo : R$ 28.000.
  • Custo operacional total por quilômetro rodado : R$ 4,50.
  • Número de funcionários por veículo : 3,2 (incluindo motoristas, cobradores e equipe de apoio).
  • Despesas com combustível por quilômetro : R$ 1,20.
  • Despesas com manutenção por quilômetro : R$ 0,90.

Apesar desses números elevados, o serviço prestado à população é frequentemente criticado por problemas como veículos sucateados, longos intervalos entre as viagens e falta de cobertura adequada em bairros periféricos. Além disso, a recente redução de quase 60% nos repasses municipais à concessionária pode levar ao sucateamento ainda maior da frota, comprometendo ainda mais a mobilidade urbana.

Maricá: transporte público municipal e tarifa zero

Já em Maricá, o transporte público é operado diretamente pelo município, com uma frota de 148 ônibus distribuídos em 47 linhas. O sistema, conhecido como “Vermelhinhos”, oferece tarifa zero para os usuários e apresenta custos operacionais significativamente menores:

  • Custo fixo mensal por veículo : R$ 18.000.
  • Custo operacional total por quilômetro rodado : R$ 3,20.
  • Número de funcionários por veículo : 2,5.
  • Despesas com combustível por quilômetro : R$ 0,70.
  • Despesas com manutenção por quilômetro : R$ 0,50.

Além de ser mais econômico, o sistema de Maricá também se destaca pela qualidade do serviço. Desde a implantação da tarifa zero, o número de passageiros transportados diariamente saltou de aproximadamente 50 mil em 2021 para 122 mil em 2023. Além disso, estima-se que a economia gerada para a população local chegue a R$ 12 milhões mensais, eliminando a necessidade de gastos com vales-transporte e melhorando a qualidade de vida da população.

Outras cidades com transporte privatizado: Salvador e São Paulo

Para reforçar a análise, vale comparar os custos de Guarujá com os de outras cidades brasileiras que também operam sob modelos privatizados, como Salvador e São Paulo. Mesmo nessas cidades, os custos são muito inferiores aos apresentados pela City Transportes, colocando em dúvida a veracidade dos números divulgados pela concessionária.

Salvador: eficiência em um sistema privatizado

Em Salvador, onde o transporte público enfrenta desafios semelhantes aos de Guarujá, os custos operacionais são significativamente mais baixos:

  • Custo fixo mensal por veículo : R$ 22.046,68.
  • Custo operacional total por quilômetro rodado : R$ 3,89.
  • Número de funcionários por veículo : 2,7.
  • Despesas com combustível por quilômetro : R$ 0,85.
  • Despesas com manutenção por quilômetro : R$ 0,65.

Esses números mostram que o custo fixo mensal por veículo em Guarujá é 27% superior ao de Salvador, enquanto o custo operacional por quilômetro é 16% maior. Além disso, o número de funcionários por veículo em Guarujá é 19% superior ao de Salvador, indicando possíveis falsidades ou então ineficiências na gestão da City Transportes.

São Paulo: desafios urbanos e custos controlados

Em São Paulo, uma cidade com uma demanda de transporte muito maior e desafios urbanos complexos, os custos operacionais também são mais baixos do que os apresentados pela City Transportes:

  • Custo fixo mensal por veículo : R$ 24.500.
  • Custo operacional total por quilômetro rodado : R$ 4,10.
  • Número de funcionários por veículo : 2,9.
  • Despesas com combustível por quilômetro : R$ 0,95.
  • Despesas com manutenção por quilômetro : R$ 0,75.

Os números de São Paulo também são mais baixos do que os apresentados pela City Transportes. O custo fixo mensal por veículo em Guarujá é 14% superior ao de São Paulo, enquanto o custo operacional por quilômetro é 10% maior. As despesas com combustível e manutenção em Guarujá também excedem as médias paulistanas, sugerindo possíveis irregularidades.

Impacto dos custos inflados para Guarujá

Os custos inflados apresentados pela City Transportes têm impactos diretos e indiretos para Guarujá. Primeiramente, eles justificam o aumento constante das tarifas, penalizando diretamente os usuários. Além disso, os altos subsídios concedidos pela prefeitura pressionam o orçamento municipal, limitando investimentos em outras áreas prioritárias, como saúde e educação.

Outro ponto preocupante é o risco de sucateamento do serviço. Com a recente redução dos repasses municipais, anunciada como medida de contenção de gastos, há o temor de que a concessionária opte por cortar ainda mais investimentos em manutenção e frota, agravando a já precária situação do transporte público na cidade.

Proposta de criação de uma empresa pública: uma alternativa viável

Diante das inconsistências na planilha de custos da City Transportes e dos problemas estruturais do sistema atual, a criação de uma empresa pública de transporte surge como única alternativa viável para Guarujá. Uma gestão estatal vai garantir maior transparência nos custos, além de permitir que os recursos sejam direcionados exclusivamente para a melhoria do serviço, e não para enriquecimento de poucas pessoas.

O exemplo de Maricá demonstra que um sistema público é economicamente sustentável e socialmente inclusivo. Para Guarujá, a implantação de uma empresa pública poderia seguir um modelo híbrido, combinando operações públicas e privadas. Essa abordagem não apenas garantiria maior concorrência no setor, mas também pressionaria as empresas privadas a melhorarem seus serviços, beneficiando os usuários.

A análise comparativa entre Guarujá e Maricá revela que o modelo privatizado adotado em Guarujá é ineficiente e oneroso para os cofres públicos. Os custos apresentados pela City Transportes são inconsistentes até mesmo quando comparados a outros sistemas privatizados, como os de Salvador e São Paulo. Essa situação exige medidas urgentes, como auditorias independentes e a revisão do contrato de concessão.

A criação de uma empresa pública de transporte emerge como uma solução estrutural para resolver os problemas do setor. Com maior transparência, controle de custos e foco no interesse público, esse modelo tem o potencial de transformar a mobilidade urbana em Guarujá, garantindo um serviço eficiente, acessível e de qualidade para todos os cidadãos.

O debate está aberto, e é fundamental que a população e as autoridades unam esforços para construir um sistema de transporte que atenda às reais necessidades da cidade.

*José Manoel é pós-doutor em Engenharia, jornalista, escritor e advogado, com uma destacada trajetória na defesa de áreas cruciais como transporte, sustentabilidade, habitação, educação, saúde, assistência social, meio ambiente e segurança pública. Ele é o fundador da FerroFrente, uma iniciativa que visa promover o transporte ferroviário de passageiros no Brasil, e da Associação Água Viva, que fortalece a participação da sociedade civil nas decisões do município de Guarujá. Membro do Conselho Deliberativo da EngD